East Of Eden: Um mapa-mundi de influências sonoras

East-of-Eden-1968

Gerard Mercator é considerado um divisor de águas na história da cartografia. Eminente geógrafo flamengo do século 16, foi ele o criador da primeira representação cartográfica confiável da esfera terrestre, através de projeções sobre uma superfície bidimensional e de um conjunto de mapas por ele denominado Atlas (já ouviu falar nessa palavra?), em homenagem ao rei Atlas da Mauritânia.

Pois ninguém melhor do esse senhor para batizar o primeiro álbum de uma banda inglesa que era um verdadeiro mapa-mundi de influências sonoras, anos antes da expressão world music ser cunhada pelos rotuladores de plantão.
Mercator Projected é o nome do álbum e a banda é nada mais nada menos que o East of Eden, uma ilustre desconhecida nos dias de hoje, mas um dos grupos mais originais da incipiente cena progressiva de sua majestade.

Formada em Bristol, no ano de 1967, e mudando para Londres no ano seguinte, a banda assinou com a Decca e passou a fazer parte do selo Deram. Sua formação na época era Dave Arbus (violino elétrico, flauta e saxofone), Ron Caines (sax alto), Geoff Nicholson (guitarra e vocais), Steve York (baixo) e Dave Dufont (percussão).

Mercator Projected saiu em 1969, misturando jazz, Bela Bártok, música oriental e rock, num caminho totalmente contrário ao dos medalhões da época que via de regra adotavam a fórmula solos de guitarra/teclados pirotécnicos.

Dave Arbus era o grande músico da banda, um cara totalmente maluco por Charles Mingus. Depois de ver Jean Luc-Ponty num show em Paris, passou a eletrificar seu violino, criando uma das marcas registradas do som do East of Eden (uma curiosidade: foi ele o responsável pelo longo solo de violino no final da música “Baba O’Riley” do The Who).

O álbum trazia oito músicas que logo fixaram a banda como uma das mais cultuadas pelo público underground inglês, o que encorajou a Deram a lançar um segundo álbum: a obra-prima Snafu.

Com a formação alterada com a entrada de Andy Sneddon no baixo e Geoff Britton (mais tarde do Wings de Paul McCartney) na bateria, este álbum escancara ainda mais as influências jazzísticas de Dave Arbus e alcança o Top 30 nas paradas da Inglaterra.

Curioso é que no final de suas apresentações ao vivo, os músicos sempre tocavam uma musiquinha totalmente diferente do estilo de seu repertório, mais folk e brincalhona, como uma forma de relaxar a audiência após tanta massa sonora.
Pois não é que “Jig-a-Jig”, esse era o mome da musiquinha, gravada como single na época, chegou ao sétimo lugar nas paradas, permanecendo entre as dez mais por 12 semanas seguidas!

Apesar de financeiramente satisfatório, esse sucesso repentino acabou por confundir o novo público que procurava nos discos do East of Eden mais exemplos comerciais de “Jig-a-Jig” e acabavam encontrando um som absolutamente refinado e desafiador.

Em 1972 o grupo sai da Deram e assina com a Harvest, lançando dois bons álbuns, embora bem mais convencionais. Vários discos e formações diferentes depois, a banda acaba em 1978, sem nunca ter reprisado o brilho de seus dois primeiros trabalhos.

Mercator Projected e Snafu permanecem como dois grandes exemplos de como o progressivo inglês soube ser imaginativo e audacioso antes de ser dominado pela ganância das gravadoras e pela megalomania inconseqüente de seus músicos.

Texto de Marco Gaspari
Matéria originalmente publicada na revista poeira Zine número 19.
Para saber mais clique no www.poeirazine.com.br

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2 responses to this post.

  1. Posted by Francisco Campos on 26/10/2010 at 16:46

    Conheço pouca coisa dessa banda. Mas o que conheço me deixou embasbacado… Como uma banda com músicas sensacionais (como “Crazy Daisy”, “Nymphemburger”, “To Mrs V”, “Northern Hemisphere”) é tão pouco conhecida? E o engraçado é que nem todos compreendem a grandeza do som dessa banda…

    Responder

  2. Posted by Álvaro Corrêa on 30/05/2009 at 18:02

    Conheci esta banda, entre algumas outras, através de uma matéria na fantástica Poeira Zine que não me recodo a edição. Após a leitura do texto sobre a banda sentir-me atraído a desvendar sua sonoridade e fui atrás de algo deles, cd ou vinil. Acabei encontrando em versão digital do intituado Snafu de 1970. Estupendo o trabalho do grupo. Mais uma extraordinária indicação poeiraziniana. Quem curte aquela sonzeira que mistura em doses perfeitas o progressivo, o jazz, o hard e outras cosita mas, não pode deixar de conferir o legado desses caras.

    Responder

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