Miles na esquina, alargando os limites do funk hipnótico…

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As explorações psicodélicas/meditativas de Miles Davis do período 1972-1975 em box de luxo.

On The Corner foi um álbum difícil para Miles. Suas extrapolias e flertes com o rock psicodélico e o funk e sua admiração por Hendrix e Sly Stone angariavam o ódio dos puristas lá pelos idos de 1972, época que Hendrix não estava mais entre nós e Sly estava fritando os poucos neurônios que ainda lhe restavam. Miles por sua vez estava empolgado; sua audiência agora era mais jovem e muito mais ampla. O lendário ícone do jazz sentia que os anos 70 seriam o ápice da música negra norte-americana e não queria ficar de fora da festa. Marvin Gaye, Stevie Wonder e muitos outros eram superstars do momento e Miles apostava que sua música intricada e complexa poderia chegar aos jovens negros dos guetos.

No primeiro dia daquele junho de 1972, Miles adentrou o estúdio B da Columbia Records ao lado de 12 músicos, dentre eles, John McLaughlin, Chick Corea e Jack DeJohnette, figuras que já haviam brilhado ao lado do mestre num divisor de águas chamado Bitches Brew. Herbie Hancock, um tocador de tabla e um especialista em cítara elétrica também estavam presentes para as sessões, assim como o arranjador e multi-instrumentista Paul Buckmaster, sujeito batuta de Bowie e Elton John. Paul trabalhou uma espécie de pré-trilha sonora para as sessões: criou padrões rítmicos de percussão, melodias e trechos para sintetizadores, tudo para deixar o pessoal mais a vontade com os improvisos.
De todos os músicos envolvidos, talvez o mais inquieto era o percussionista indiano Badal Roy. Sua inquietação tinha uma razão: Badal nunca havia participado de uma jazz session antes. Miles, percebendo a tensão no ar, chegou para o percussionista e ordenou: “Just play like a nigger!” (“Apenas toque como um negro!”).

O então ‘novo’ Miles concentrava-se menos nos longos solos e nas harmonias; jogava mais para o seu próprio time. Timbres, efeitos, texturas e grooves eram as preocupações da vez do músico; seu trompete servia agora de ‘rhythm device’. Segundo Buckmaster, tal fato ocorreu devido ao fascínio do Miles daquela época por Stockhausen. As manipulações de tapes do vanguardista deixavam Miles maluco – em sua Lamborguini, o cartucho mais executado era Hymnen. Por volta de outubro de 1972, Miles sofreu um grave acidente com essa sua Lamborguini, que resultou em oito semanas de internação num hospital.

The Complete On The Corner Sessions é o nono e último box da Sony dedicado à genial obra do músico; traz 30 takes, sendo que um terço deles ultrapassa a casa dos 20 minutos de duração. O mantra está garantido. Das faixas, 16 delas são inéditas e a maioria retrata as sessões na íntegra, sem os overdubs e cross-fades realizados pelo produtor Teo Macero na versão original do álbum. Alguns trechos e jams deste box também apareceram em outros álbuns de Miles, como Big Fun e Get Up With It.

A parte gráfica do lançamento também é um primor; um libreto de 120 páginas traz muitas informações, ensaios dissertativos de Paul Buckmaster e Tom Terrell, fotografias inéditas e novas ilustrações de Cortez McCoy, o artista responsável pela capa original do álbum.

The Complete On The Corner Sessions é um marco do genial Miles Davis, que após o verão de 1975 se retirou do showbizz pelo restante daquela década.

Sendo assim, fica claro que essas sessões alimentaram o próprio Miles e o jazz por um belo (e triste) par de anos.

Texto de Bento Araújo
Matéria originalmente publicada na revista poeira Zine número 18.
Para saber mais clique no www.poeirazine.com.br

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