ZZ Top – Via Funchal – São Paulo (21/05)

Por Bento Araújo (www.poeirazine.com.br)
Fotos de Felipe Gorczeski
(email: philtheblues@gmail.com / twitter: @philltheblues)

Finalmente tivemos o trio texano ao vivo no Brasil!

Com 40 anos de carreira, o ZZ Top é uma das pouquíssimas bandas que permanecem na estrada com sua formação original (Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard), e isso sempre faz uma bela diferença, principalmente quando você tem que dispensar uma astronômica quantia de reais para assistir um show internacional no país ultimamente…

O trio se apresentou por duas noites na Via Funchal, em São Paulo; na primeira (quinta-feira), lotação completa da casa, com a galera simplesmente indo à loucura. Na segunda noite, ingressos mais caros (R$500 para assistir um show de rock só pode ser gozação! Onde isso vai parar?), e mesas ao invés de “pista”. Um bom público compareceu, mesmo que a empolgação tenha sido mais alta no primeiro dia, isso literalmente conectado ao fato de ser a tradicional “pista” na primeira noite, o que torna qualquer apresentação mais “calorosa”. Quem pintou nos dois dias disse: “o primeiro dia foi mais animado, mas o segundo foi melhor, pois o som estava mais redondo”.

Engraçado o público do ZZ Top hoje em dia… 20% dele é formado por die hard fans, aqueles que vibraram quando Billy Gibbons puxou a introdução maravilhosa de “Brown Sugar”, música do primeiro disco do trio, de 1971; ou quando Gibbons tira do case sua legendária Pearly Gates (sua Les Paul do coração) para detonar no slide e mandar uma versão arrasa quarteirão de “Just Got Paid”, original lá do segundo álbum deles, Rio Grande Mud, de 1972. Os demais 80% do público são a geração MTV, ou geração Kiss FM (a rádio Classic Rock aqui de Sampa City), uma galera que vai a loucura com “Gimme All Your Loving” e nada mais.

O ZZ Top teve duas fases distintas em sua carreira. Quando eram uma verdadeira banda de blues e rock no melhor formato power trio, e outra quando foram talvez a banda que mais se beneficiou da era dourada dos vídeo clipes e da MTV, no início dos anos 80. Pra geração que cresceu assistindo o trio na TV, nos clipes de “Gimme All Your Loving”, “Legs”, “Sharp Dressed Man” e “Got Me Under Pressure”, e com o Eliminator na vitrola; o show foi simplesmente sensacional, pois todas essas faixas foram incluídas no set. Já para quem curte a Little Old Band From Texas dos anos 70, e esperava algo ao vivo na pegada do lado on stage do álbum Fandango, ou do DVD deles registrado pelo programa da TV alemã Rock Palast (em 1980), algo ligeiramente decepcionante insistia em pairar no ar da Via Funchal.

O problema maior do ZZ Top é que depois que eles descobriram essa mina de ouro que foi o disco Eliminator, de 1983, os caras se acomodaram e o fervor de antigamente ficou um pouco encoberto.

Tudo é extremamente super produzido: um puta palco, um mega telão, um som de bateria poderoso e um kit de bateria em si que parece que vai levantar vôo a qualquer instante. Tudo muito high tech para uma banda de blues rock, certo? Em alguns momentos, como na versão bizarra de “Viva Las Vegas”, e em “Sharp Dressed Man” e “Pincushion”, você pode jurar que os caras estão encenando, tocando por cima de algo pré-gravado. Isso é uma acusação muito séria de ser feita… Veja bem, não estou dizendo que os caras do ZZ Top deram uma de Madonna e fizeram “playback”… Apenas estou ressaltando que tudo soa tão redondo, tão polido e pasteurizado, que fica difícil de acreditar que tudo aquilo que vem do palco está realmente acontecendo 100% ao vivo. São camadas e mais camadas de efeitos que surgem nos PAs; sons eletrônicos de bateria, sequencers e samplers. Até os vocais em alguns momentos soam tão altos (digo no alcance das notas) e redondinhos, que parecem ser pré-gravados, principalmente num ou outro refrão da era Eliminator. Em se tratando de um power trio com base no blues, falta totalmente algo mais orgânico e visceral no palco; falta improviso, falta jams…

Claro que Billy Gibbons é um gênio de seu instrumento. O cara continua tocando pra cacete, com um timbre espetacular de guitarra, bom gosto de sobra e uma malandragem digna de um velho bluesmen negro do Mississippi. Ele não toca, ele brinca com sua guitarra e o resultado é fenomenal, empolgante mesmo. Sua simpatia com o público brazuca também tem que ser mencionada, falando várias frases em português, brincando com duas “amigas” sensacionais que subiram ao palco e curtindo cada instante do show. Gibbons é o mestre de cerimônias e até mesmo seu antigo comparsa Dusty Hill fica ofuscado pelo brilho do guitarrista. Dusty cantou algumas faixas, mas pareceu bem mais introspectivo e tímido do que antigamente. Talvez seja o peso da idade ou a hepatite grave que ele enfrentou há alguns poucos anos atrás… Já Beard é totalmente apático. Não olha para o público um minuto sequer, entra e sai de cabeça baixa. Quem brilha o tempo todo é Gibbons…

Bons momentos da noite foram a dupla “Waitin’ for the Bus” e “Jesus Just Left Chicago”; duas clássicas do excelente Deguello (“I’m Bad, I’m Nationwide” e “Cheap Sunglasses”); a homenagem a Hendrix com “Hey Joe” e um trechinho de “Wind Cries Mary”; a balada “I Need You Tonight”e a encore obrigatória de “La Grange” e “Tush”. Ponto baixo: a fraca “Party On The Patio”, do decepcionante álbum El Loco, de 1981. Ao invés dela, poderiam certamente ter incluído mais material de discos obrigatórios como Fandango e Tejas.

Minha avó sempre diz: “Quem fez fama deita na cama”, é exatamente esse o caso do ZZ Top. Uma banda que sabe como ninguém dar um show, porém no melhor estilo Las Vegas. A banda encontrou sua forma com Eliminator e até hoje bate na mesma tecla. Os shows são parecidos desde então: a genialidade de Gibbons permanece ali o tempo todo, meio encoberta por uma maçaroca de efeitos eletrônicos. No trecho “blues” do show, Gibbons faz valer cada centavo, mas quando o ZZ TOP vai se tocar e fazer um show totalmente “stripped”, como nos velhos tempos? Os três caras, seus instrumentos e nada mais.

Talvez a idade não permita mais, então Gibbons, Hill e Beard apertaram o botão “safe mode”, ou “comfort zone”, e levantaram vôo com seu carrão vermelho, assim como na capa de Afterburner. A zona de conforto que o grupo habita desde 1983 não permite riscos e aventuras típicos do improviso; “bolas na trave”, desafinadas e microfonias também não são permitidas, a máquina não permite…

Uma antítese do blues feita por quem manja do riscado, certo?
É o poder do dólar meu chapa…

2 responses to this post.

  1. Posted by Paulo Ferreira on 31/05/2010 at 21:08

    Bento,

    Parabéns pela resenha, meu velho, realmente, coisa fina de quem sabe muito do riscado. Eu estava lá na sexta 21. Acho que fiquei mais feliz e mais satisfeito por ser guitarrista – então ver e ouvir Billy Gibbons ao vivo já me deixava feliz demais. O som de guitarra do cara é algo de outro mundo, maravilhoso mesmo. Mas não deixo de concordar contigo no aspecto excessivamente polido do show, na inclinação muito mais pra Vegas do que pra liberdade e improviso da origem blues e southern rock. Por fim, achei bom demais e iria de novo com certeza – mas também gostaria de ver mais imperfeição, improviso, Gibbons e a banda assumindo mais riscos – mas essas são coisas que ficaram no tempo em que eles ainda lutavam para pagar os primeiros carrinhos vermelhos… rsrsrs.

    Responder

    • Valeu pelo elogio Paulo!
      Legal que vc também sacou isso do show, Gibbons é um mestre da arte de tocar guitarra, o cara é malaco pacas!
      abs
      Bento

      Responder

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