Free Design



As capas dos elepês do Free sempre foram um diferencial. Sejam elas apenas uma foto, uma ousada embalagem, um logo imponente, ou minimalismo puro.

Em Tons Of Sobs o artista e fotógrafo Mike Sida, supervisionado pelo produtor Guy Stevens, criou uma foto abstrata, registrada com um filme infravermelho, utilizado para fotos noturnas. O cenário criado por Mike era assustador e bizarro ao mesmo tempo: um cemitério sombrio e surreal (de verdade), onde um boneco do Mickey Mouse repousava dentro de um caixão gigante de vidro. Enquanto isso, um leopardo espreitava um inofensivo coelhinho, posicionado ao lado de um cacto e uma máscara de palhaço. A melhor maneira de analisar a foto, que toma toda a capa dupla do vinil, é ouvindo “Moonshine”, cuja letra parece ter sido criada com essa imagem em mente, ou vice versa. Na parte interna, fotos individuais de cada integrante e uma geral do grupo, devidamente enevoado. As fotos individuais serviram como capa na versão “capa simples” norte-americana do disco. A razão? Apenas um súbito pânico de ser processado pela Disney, já que um de seus ícones aparecia como um defunto…


Para o segundo e homônimo álbum o Free ousou ainda mais ao usar uma imagem de uma garota nua saltando livre ao vento, uma genial criação do fotógrafo e designer Ron Raffaelli. A capa se tornou uma das preferidas de Aubrey Powell do estúdio Hipgnosis: “Não existia nada como aquilo na época. As pessoas começavam a experimentar, assim como a indústria, que passava a dar uma maior atenção às capas. Ter uma capa daquela para uma banda de blues rock como o Free foi algo ousado, bravo, aventureiro, sexual e até esotérico. Nós a consideramos um marco.”

Marco também foi o provocativo anúncio do álbum publicado nos jornais Melody Maker e NME, onde uma (outra) garota nua dançava no meio da multidão na Ilha de Wight.

O segundo e mais psicodélico disco do Free mereceu uma arte gráfica à altura. Um dos favoritos da facção mais freak que acompanha o grupo, Free, o álbum, veio numa época de plena ascensão da banda inglesa, fato esse assimilado pelo desenhista e fotógrafo Ron Raffaelli. Camarada de Hendrix e calejado de fotografar gente simples como Stones, Cream e Led, Raffaelli foi o sujeito que injetou sensualidade na imagem rude do Free.

A foto da garota, uma jovem de 18 anos chamada Linda Blair (não a do Exorcista), foi tirada no estúdio particular do artista, em Hollywood.

Raffaelli posicionou rampas e caixas de madeira para que a modelo pudesse pular, nua, de um lado para outro do estúdio enquanto ele (deitado no chão) acionava jogos de luzes e posicionava sua câmera fotográfica. Vários saltos foram realizados para que a foto ficasse perfeita. Depois desse primeiro passo, Raffaelli ressaltou a silhueta da garota através de um negativo da foto original e a adicionou, num primeiro momento, sobre um fundo branco.

Desanimado com o resultado até então apático da imagem, o fotógrafo subiu no telhado do seu estúdio e registrou o céu californiano. O problema do fundo estava resolvido, mas a maior sacada foi preencher o corpo da garota com uma foto noturna, que deu um charme especial na capa.

Na parte interna da edição original do vinil gatefold, outra belíssima foto ilustra bem o espírito da época. A mesma modelo posa nua em uma paisagem árida, em volta a cubos ilustrados com os rostos dos integrantes da banda.

O forte sentimento de liberdade estava estampado gloriosamente no segundo trabalho do Free, exatamente como eles queriam. Não é a toa que tal arte gráfica tornou-se uma das favoritas do lendário capista Storm Thorgerson, o mago do estúdio Hipgnosis.

Fire And Water, além de ser a primeira “capa simples” do Free, tinha um design muito mais simples e direto, trazendo aquela que seria a foto mais famosa do Free. A imagem definia perfeitamente a postura de cada integrante da banda e mesmo do álbum. Era também a primeira vez que uma foto do grupo aparecia em uma de suas capas de disco.

A foto utilizada veio de uma sessão de um misterioso fotógrafo japonês chamado Hiroshi. Tanto as fotos como o fotógrafo sumiram do mapa pouco depois, e hoje ninguém sabe o paradeiro de ambos. Alguns outtakes das sessões de fotos foram usados em capas de singles lançados em diversos países, mas nada consta nos arquivos do próprio selo Island.

A capa do álbum seguinte, Highway, deixou a banda completamente enfurecida, pois foi uma sugestão da gravadora que eles odiaram. Paul Rodgers diz que muitas ideias foram apresentadas, sendo que algumas eles gostaram e outras não, mas que a escolhida pela Island foi a que eles menos aprovaram. Segundo o vocalista, a arte de Highway não gera o menor impacto… Certa vez ele afirmou que ficou olhando a vitrine de uma loja, tentando achar o novo álbum de sua banda, sendo que o LP estava ali, passando completamente despercebido bem debaixo de seu nariz. Impacto zero.

Na versão digital a capa de Highway certamente fica ainda mais sem sentido, pois no vinil pelo menos é possível sacar a ideia original do selo, que era a de montar os rostos dos quatro integrantes através de pequenos pontos, ou melhor, letras da palavra f-r-e-e. Talvez a combinação fraca de tons pastéis não tenha ajudado… A confusão foi tanta que numa resenha um jornalista completamente desinformado chegou ao ponto de escrever: “Essa nova banda chamada Highway soa exatamente como o Free…” A capa de Highway infelizmente foi uma bola fora de Chris Blackwell.


O que Highway pecou Free Live! acertou na mosca. Imitando um disco pirata, a bolacha vinha embalada dentro de um envelope de carta, com os quatro integrantes servindo, cada um, como um selo postal. Uma ótima ideia que foi depois muito copiada.

Em Free At Last temos dois distintos detalhes, um trazendo o logo definitivo (e bem colorido) do grupo na capa, numa ilustração puramente setentista, porém mais superficial e menos inspirada. O outro detalhe está na divertida conta-capa, divertida apenas pelo fato de trazer fotos individuais dos integrantes em cada um dos cantos da capa.

Até aí nada demais, não fosse pelo fato do pessoal estar nitidamente com cara de sono! Repare na foto de Rodgers, parece que tiraram o cara da cama para bater a foto! Já Kossoff parece contente, porém aparenta estar mesmo com a saúde muito debilitada.

Heartbreaker é a capa mais minimalista do Free e também uma das mais belas. Retrata uma silhueta de Paul Rodgers on stage, muito simbólica e misteriosa. A arte se tornou a “camiseta perfeita” do Free.

Texto de Bento Araujo
Este texto ficou de fora da edição impressa atual (pZ#36) meramente por questões de espaço.
Nessa edição atual você confere um especial sobre o FREE. Veja mais clicando AQUI

2 responses to this post.

  1. Texto maravilhoso! Free era A banda mesmo. Nunca ouvi algo tão arrebatador como essa banda, e nem quero, rs.

    Responder

  2. Posted by Claudio Foá on 04/06/2011 at 19:39

    Acabo de dar uma bizoiada na capa do meu Highway (vinil). Nunca tinha reparado naquelas letrinhas fffffffff-rrrrrrrrrrr-eeeeeeeee-eeeeeeee.
    E não conhecia a capa interna do 2o. album. Que tesão! (o meu é capa simples)

    Responder

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