Um papo com Leo Lyons (Ten Years After)

Entrevista realizada por Bento Araujo (www.poeirazine.com.br)

poeira Zine – Você conheceu Alvin Lee na época dos The Atomites e ele disse que você era um dos poucos caras que podia fazer um baixo elétrico soar como um baixo acústico…

Leo Lyons – Ambos morávamos em Nottinghamshire, eu em Mansfield e Alvin em Wollaton Park. Eu havia me juntando a um grupo local chamado The Atomites, que estava querendo se tornar professional. Logo após que entrei para a banda o guitarrista caiu for a e então nós fizemos vários testes com novos guitarristas. Foi aí que Alvin surgiu e ficou com a vaga.

No começo da minha carreira eu tentava fazer o meu som parecer o mais próximo daquele de um baixo acústico. Eu atacava às cordas com dois ou três dedos da minha mão direita, o que gerava um som bem ‘slap’. Foi assim que o meu estilo de “atacar às cordas” foi se desenvolvendo. Eu estava constantemente quebrando cordas do meu baixo e sempre sofria bastante com as inúmeras bolhas nos meus dedos.

pZ – Podemos dizer que nessa época vocês não passavam de dois pretendentes a Scotty Moore e Bill Black?

LL – Éramos e ainda somos fãs do período Sun Records de Elvis Presley. Amamos o jeito de tocar de Scotty, Bill e DJ Fontana. Também curtimos outros artistas da Sun, como Carl Perkins, Johnny Cash e Roy Orbison. Eu moro em Nashville e quando não estou em turnê com o TYA, trabalho como compositor numa empresa que registra músicas country. Eu adoro música country, principalmente aquela que tem puma vibração mais rock ‘n’ roll.

pZ – Você era o empresário nos Jaycats e nos Jaybirds. É verdade que no começo vocês quase morreram de fome em Londres?

LL – Nosso primeiro empresário foi um homem de negócios de Mansfield chamado Philip Smith, mas as coisas não funcionaram com ele. Não que tenha sido culpa de alguém especificamente, todos tentávamos realizar uma sucessão de tarefas naquela altura.

Tentamos achar um outro empresário, mas na ausência de alguém acabei me tornando o empresário dos Jaybirds de 1962 até 1967, quando nos tornamos o Ten Years After e assinamos um contrato com Chris Wright da Chrysalis Records.

Quando nos mudamos para Londres pela primeira vez, em 1961, foi tudo muito difícil. Dividíamos todos um único quarto e cozinhávamos nosso jantar numa espécie de fogão improvisado. Nós não tínhamos dinheiro e era puma luta pagar o aluguel todo mês. Depois de algumas más experiências, Ivan Jaye e Roy Cooper, membros originais da banda, resolveram nos deixar, pois estavam completamente desiludidos com o mundo da música. Sobrou eu, Alvin e o baterista Pete Evans e ficamos como um trio até 1966. Pete saiu em 1963 e foi substituído por um baterista chamado Dave Quickmire. Foi por volta de 1965 que Ric Lee veio para o grupo. Chick Churchill veio um pouco depois. Foi só em nossa terceira tentativa em Londres que começamos a conseguir alguma coisa…

pZ – Nessa época vocês chegaram a trabalhar com o legendário Joe Meek, certo? Fale mais a respeito…

LL – Joe Meek era um produtor e engenheiro de som independente totalmente inovador, tanto que as vezes ele é chamado de “uma versão inglesa de Phil Spector”. Ele tinha um pequeno estúdio em Londres, localizado três andares acima de uma loja de couro.
Joe fez uma audição com Alvin Lee, para buscar um guitarrista para os The Outlaws, uma banda que ele produzia. A audição não foi boa, mas Alvin falou para Joe sobre Ivan Jaye e os Jaybirds e nós finalmente conseguimos um contrato de gravação. Joe sugeriu que mudássemos de nome para Ivan Love and The Lovebirds, mas durou pouco. Odiamos o nome.

Gravamos vocais e as faixas instrumentais. Joe estava tendo muitos problemas com a distribuição de seus discos e o nosso disco foi adiado por tempo indefinido. Na verdade, Ivan havia deixado o grupo na próxima ocasião em que gravamos com Joe Meek. Isso foi em 1963, quando voltamos para Londres de Hamburgo.

Nessa época Alvin era o nosso vocalista e Joe queria que ele assumisse de vez a postura de frontman do grupo. Infelizmente, Joe tinha outros planos para Alvin… Durante uma sessão de gravação para os vocais, tarde da noite, Joe, que era homossexual, fez várias declarações amorosas para Alvin. O jovem Alvin Lee ficou furioso com aquilo tudo e abandonou as sessões, deixou o estúdio para nunca mais voltar. Esse foi o fim da nossa carreira com a RGM Sound e com Joe Meek.

pZ – Você foi o responsável por batizar a banda como Ten Years After. Como rolou isso?

LL – Os Jaybirds precisavam de um novo nome. Usamos The Bluesyard em algumas apresentações, porém o nosso novo manager, Chris Wright, sentiu que precisávamos de algo mais ‘único’ e diferenciado. Eu estava lendo uma revista chamada The Radio Times e me deparei com um anúncio de um livro chamado “Suez Ten Years After”, que era sobre a invasão do canal de Suez. Pensei que “Ten Years After” poderia ser um ótimo nome para uma banda.

Ali estavam muitas possibilidades. Por exemplo, o número dez é um importante e místico número dentro do tarô. Fazia também dez anos que Elvis tinha alcançado a fama mundial. O restante do grupo aceitou imediatamente o novo nome.

pZ – Por volta de 1966 você foi convidado a integrar uma banda que Jimi Hendrix estava montando. Fale mais sobre isso…

LL – Chas Chandler, o baixista dos Animals, foi a primeira pessoa que me apresentou a Jimi, foi no Cromwellian Club, em Londres. Eu havia ido até lá naquela noite para assistir a um show/demonstração do Taste. Naquela altura eu ainda não tinha ouvido, ou visto, Jimi tocar. Chas me disse que estava montando um grupo para acompanhar Jimi e me perguntou se eu estaria interessado em ser o baixista. O cachê era de 15 pounds por semana. Na época era uma boa oferta, mas eu recusei apenas pelo fato de ter investido tanto tempo e dedição no meu próprio grupo que eu queriam muito ver a coisa acontecer pra gente. O TYA viria a dividir o palco com Jimi Hendrix por inúmeras ocasiões. Em algumas delas eu fiz umas jams com Jimi e Mitch Mitchell – numa noite em NYC, Jimi sentou e tocou o meu baixo inclusive. Em todos esses anos que se passaram eu nunca me arrependi de não ter tocado com o Jimi Hendrix Experience. No entanto, eu me pergunto as vezes, o quão diferente teria sido a minha vida caso eu tivesse aceitado aquela proposta…

pZ – E aquela história do suco de laranja com o Led Zeppelin em NYC, 1969? Realmente aconteceu? Por que você acha que John Bonham jogou suco de laranja em Alvin Lee no meio do show do TYA? Alvin ficou furioso com Bonham?

LL – A gente conhecia bem o pessoal do Zeppelin. Eles tinham uma noite livre e vieram assistir ao nosso show. John Bonham estava completamente bêbado e atirou uma garrafa de suco de laranja no Alvin Lee, isso bem no meio do nosso show. Não creio que tenha sido por alguma razão especial… Na época eu nem dei muita bola para esse incidente, e provavelmente eu devo ter pensado: ‘que baita idiota é esse cara…’

Pelo que me lembro, nunca cheguei a comentar sobre isso com Alvin; tanto que eu tinha completamente me esquecido disso até ler o livro do Richard Cole.

Nessa época havia muita sacanagem desse tipo entre os grandes grupos de rock. Lembro que naquela mesma noite, Peter Grant e Richard Cole viraram o nosso tecladista, Chick Churchill, de ponta cabeça dentro de um cooler de bebidas, repleto de gelo. Tudo numa boa, apenas pela diversão…

pZ – Como você conseguiu aquele maravilhoso som de baixo em estúdio na gravação de “Good Morning Little Schoolgirl”?

LL – Obrigado pelo elogio! Eu pluguei o meu Fender Jazz Bass ’62 num Vox AC Thirty Super Twin e microfonei esse amplificador com um Neumann U87. Utilizamos também um canal com o meu baixo plugado diretamente na mesa. Comprimimos ambos os canais com um compressor da Pye ou da Fairchild e pronto, eu tinha aquele som.

pZ – Você e o Alvin, principalmente quando a grana que entrava da banda não era lá essas coisas, podem ser ouvidos num bom número de antigos hits. Quais sessões que voces participaram na época que os fãs talvez hoje desconheçam?

LL – Todos os integrantes do TYA tocaram nos discos do The Ivy League, e por um tempo até servimos como banda de apoio deles ao vivo. Gravamos um comercial para um tabaco de caximbo em NYC… Lembro também de tocar no disco Guitar Crushes, gravado em Chicago. Ric Lee e eu tocamos num disco solo de Mike Vernon chamado Moment Of Madness. Toquei também em discos do Flower Pot Men, grupo com quem o baterista de estúdio Clem Cattini também gravava. Cattini me recomendou para outros projetos, que eu infelizmente não posso te dizer quais são. Naquela época isso era muito comum, éramos contratados para gravar um hit em potencial para algum determinado grupo. Músicos de estúdio nunca sentavam-se à mesa de som para ouvir um playback daquilo que havia acabado de ser gravado. Na maioria dos casos, nem éramos apresentados aos artistas. Hoje eu escuto um antigo hit e me pergunto: ‘Será que eu toquei neste aqui?’

Lembro de tocar com Albert Lee em algumas sessões. Conheci Albert em 1962 e fiz algumas jams com ele no Top Ten Club, na Alemanha. Para melhorar a renda no fim do mês, toquei por um tempo com o guitarrista de jazz Denny Wright no La Rascasse Club, em Chelsea, Londres. Fomos contratados para uma boa temporada lá, Denny era também o guitarrista de Lonnie Donegan. Quando ele tinha shows com Donegan, eu chamava Alvin para substituí-lo. Comecei a fazer uma grana boa pela cidade, mas fui obrigado a larger tudo quando o TYA começou a engrenar…

pZ – Num certo ponto da carreira, o TYA foi acusado pela imprensa britânica de ter abandonado os fãs ingleses. Como você encarou esse tipo de crítica na época?

LL – Estávamos na verdade nos EUA, balançando a bandeira da ‘British Blues Invasion’. Nunca senti ter abandonado as nossas origens, mas os fãs estavam acostumados a nos assistir em pequenos clubes de blues todas as semanas. Foram nove anos tocando por todo o Reino Unido, até que nossa banda ficasse popular em outros locais.

Quando o TYA foi convidado a excursionar por outras partes do mundo, nosso empresário sentiu que a oportunidade era ótima, então ele tratou de trabalhar o grupo dentro dos maiores mercados fonográficos da época. Nos States, por exemplo, podíamos tocar sete dias por semana em arenas com capacidade para mais de 10.000 pessoas. Naquela época existiam apenas algumas poucas arenas desse porte no Reino Unido…

No final dos anos 60 e começo dos 70, fizemos nos EUA, cerca de três tours de sete semanas por ano, enquanto que no Reino Unido a media era de uma tour de três semanas por ano. Nosso tour britânica geralmente acabava com um show no Royal Albert Hall. Tocamos também no Reading Festival, no festival da Ilha de Wight e no Bath Festival.

pZ – Ten Years After, The Who, The Jimi Hendrix Experience… Poucos foram os grupos que tiveram o privilégio, a honra e o gabarito de se apresentar nos grandes festivais ao ar livre dos anos 60. Quais as memórias desse grande período do rock ‘n’ roll?

LL – Posso lhe garantir que eu estava na hora certa e no lugar certo. Me sinto um felizardo por ter tocado em muitos palcos onde a história foi acontecendo, desde o Star Club em Hamburgo até Woodstock e todos os outros. Eu adoro tocar em festivais, a atmosfera é sempre maravilhosa. Toda vez que vou subir ao palco eu sinto calafrios, seja num grande festival ou num pequeno clube…

pZ – Nos anos 70 o Ten Years After tocou no Budokan Hall, em Tóquio. Você lembra desses shows e de outros pela terra do sol nascente?

LL – Quando excursionamos pelo Japão poucas bandas de rock haviam tocado lá. Foi uma experiência cultural totalmente nova pra mim. A plateia japonesa é muito respeitosa e quieta, só aplaudindo no final de cada canção. Estávamos acostumado com pessoas gritando e cantando durante o show… Lembro que o primeiro McDonalds do país abriu na semana em que estávamos em Tóquio. Centenas de pessoas fizeram uma imensa fila para encarar aquela “experiência duvidosa”.

Tocar no Budokan foi um marco, não só na nossa carreira, mas particularmente pra mim. Eu havia sido um seguidor de artes marciais por muitos anos e o Budokan era a Meca, um lugar sagrado. Nem nos meus pensamentos mais distantes eu havia imaginado em apresentar a minha arte lá, nesse caso, a minha arte musical.

pZ – Em 1974, Tony Stewart do NME fez uma resenha agressiva e cáustica sobre o show de despedida do TYA no Rainbow Theater de Londres. Na resenha ele dizia: “Leo Lyons foi o único que demonstrou sinceridade e interesse no que estava fazendo… Todos podiam jurar que os outros três estavam ali sob pressão, sofrendo.” Foi esse o caso naquela situação?

LL – Eu não li essa resenha, mas talvez exista alguma verdade nessa observação de Tony Stewart. Alvin queria sair em carreira solo e existia puma tensão dentro do grupo. Talvez os outros preferiam mesmo não estar ali naquele momento…
Eu curti o show. Tenho a capacidade de mergulhar num pensamento e me perder dentro da música, qualquer seja o jeito que estou me sentindo. Creio que a música tem propriedade de cura tanto para o músico como para quem está ouvindo. Eu amo o meu trabalho e é sempre um imenso prazer dividir isso com os fãs…

pZ – Em 1997 o TYA fez alguns shows pelo Brasil pela primeira e única vez até agora. No show de São Paulo, um fã maluco subiu no palco e agarrou Alvin, o que fez o show terminar mais cedo. Você lembra dessa ocasião? Você tem boas lembranças do Brasil?

LL – Eu amo tocar na América do Sul. Alvin achava tudo muito longe, para ele “era difícil voar até aí para fazer apenas algumas apresentações…” No Rio de Janeiro ele vetou que o show fosse transmitido pela TV, o que causou o cancelamento da data. Isso me deixou muito triste e furioso…

A versão reformulada do TYA tocou no Chile em 2009 e tentamos desesperadamente armar algo no Brasil, o que infelizmente não aconteceu. Lembro sim do show em São Paulo e de todos os demais daquela tour. Mas aquele incidente não foi nada demais… Lembro da atmosfera e da plateia, ambas fenomenais. Espero voltar a tocar por aí algum dia. Recebo muitos e-mails de fãs brasileiros.

pZ – Now, Roadworks, Evolution e Live At Fiesta City DVD. O Ten Years After continua ativo no novo milênio, e já lançou esses três álbums e o DVD. Joe Gooch, o substituto de Alvin Lee pode ser um ótimo frontman, mas parece que os velhos fãs ainda não foram convencidos…

LL – As pessoas não gostam de mudanças e leva tempo para uma parcela dos velhos fãs perceber que o TYA era feito de quatro pessoas e não de uma só. Por outro lado, tem gente que considera a formação atual a melhor de todas… É uma questão de opinião, mas essa formação com Joe Gooch é bem aceita no mundo todo por novos e velhos fãs, com exceção de uns poucos fãs mais radicais. Na verdade os novos fãs estão descobrindo e comprando os nosso velhos discos…

pZ – Fale mais sobre a sua nova banda, o Hundred Seventy Split.

LL – O Hundred Seventy Split é um power trio que faz blues rock, com Damon Sawyer na bateria, meu companheiro de TYA, Joe Gooch na guitarra e vocal, e eu no baixo. O grupo foi formado para tocar um tipo de música diferente daquela executada pelo TYA. Não existem limitações com o nosso material, nossa única regra é não tocar nada do TYA. Lançamos nosso CD, The World Won’t Stop, este ano, e ele vem conquistando grandes resenhas. Tocamos este ano na Polônia, França, Suíça, Bélgica, Alemanha, Áustria e Hungria. Passamos inclusive cinco semanas excursionando com Johnny Winter, a convite do próprio. Nosso próximo plano é gravar o programa Rock Palast para a TV alemã e também o nosso primeiro DVD, no The Rock Hall, em Luxemburgo. Temos muitas coisas pra rolar dentro dos próximos 12 meses.

Ainda curto muito tocar com o TYA e não tenho planos de deixar o grupo, mas como muitos músicos, nunca recuso um desafio e estou sempre buscando fazer algo novo em relação à música. Estou realmente empolgado com essa minha nova banda.

Trechos deste longo papo estão também na nova edição impressa da poeira Zine. Para saber mais sobre essa edição, clique AQUI

Para sacar mais sobre o novo projeto de Leo Lyons e Joe Gooch, o Hundred Seventy Split, acesse o www.hundredseventysplit.com

Veja abaixo o grupo em ação:

3 responses to this post.

  1. Posted by thiago on 06/07/2013 at 3:00

    Muito bom.
    Sou muito fan do ten years after…
    fiquei bem triste com a noticia do lendário alvin lee morre.
    espero que eles venha com essa nova formação para o brasil, a banda e boa mas sem ofensas Alvin lee era 1 integrante essencial assim como leo , Chick , ric.
    bom guitarrista, mas Alvin e unico🙂

    Responder

  2. Parabéns pela belíssima entrevista!! Que bom podermos ler uma entevista com essa lenda do rock e ainda em português!! Báh que maravilha isso!! Sou o idealizador do blog Venenos do Rock e gostaria de saber se posso colocar um link pra essa entrevista lá no meu blog!! Leon Lyons é veneno puro e recomendado!!

    Responder

  3. Posted by Luis freitas on 31/10/2011 at 13:01

    Muito legal essa entrevista. Não é sempre que se tem informações de artista que não são exatamente o “main stream”. esse cara é fantástico. Com ou sem o Alvin Lee.

    Responder

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