Marianne Faithfull em Buenos Aires

Marianne Faithfull com Marc Ribot
Teatro Coliseo, Buenos Aires, Argentina, 22 de setembro
Texto: Marcelo Sonaglioni

‘Você sabe, eu ainda fumo…” Apenas 50 minutos haviam se passado desde o início do show, e ele não duraria muito mais, de qualquer forma, já que Marianne Faithfull mostrava a todos que não precisava de uma única desculpa para explicar as razões por que, naturalmente, ela tossia novamente sempre que precisava. As mesmas razões que mudaram a voz original de adolescente, aguda, para voz cavernosa que hoje, aos 64 anos, ainda é uma parte distintiva dela, incluindo umas décadas de abuso de nicotina e outros venenos. O mesmo momento em que ela foi descoberta por Andrew Loog Oldham, o lendário empresário e produtor dos Rolling Stones, que não fazia objeções a apresentá-la ao mundo como “um anjo com seios”. Uma carreira que podemos traçar desde seu papel como um ícone indiscutível dos anos 60 nos anos mais legais da chamada Swinging London (quando ela se tornou “a namorada de Mick Jagger”, e eventualmente uma sempre-presente musa dos Stones, um rótulo do qual ela nunca conseguiu se livrar após todos esses anos), até o glorioso comeback no fim dos anos 70, após vagar pelas ruas de Londres como uma verdadeira viciada em heroína. Não foi outra senão Faithfull, uma ávida leitora e dona de uma enorme bagagem cultural, descendente de Leopold von Sacher-Masoch (o escritor e jornalista austríaco mais conhecido como mo homem que originou o termo “masoquismo”), que eventualmente “poliu” Jagger, e o levou fundo ao mundo da aristocracia britânica.

Cerca de quatro décadas depois, como foi anunciado “Marianne Faithfull e Marc Ribot, Uma Noite Intimista”, ultrapassou o nível de intimidade prometido, terminando em uma dose incrível de majestade e simplicidade, todos vindos de uma artista que não precisa de nada além disso para mostrar suas habilidades impressionantes. Esta foi a primeira visita à Argentina (ela havia feito antes apenas uma curta viagem de férias ao Brasil, com Jagger, Keith Richards e a então namorada dele, Anita Pallenberg, no fim dos anos 60), após dois shows em Porto Alegre, dois dias antes de sua chegada ao país platino. Tudo do que Faithfull precisou foi um microfone, um banquinho (que ela nunca usava, de qualquer forma; preferiu ficar de pé durante todo o show, dando alguns passos ou dançando suavemente com as mão nos bolsos), uma estantinha para as letras e uns poucos spots de luz, além da presença essencial do fantástico Mark Ribot no violão e backing vocal (precisaríamos de um artigo extra só para falar de sua grandeza), melhor conhecido como o session man para gente como Tom Waits, Elvis Costello e a própria Faithfull, apenas para citar uns poucos. E, nem precisava dizer, a voz de Marianne, aquela voz!

Inesperadamente, Faithfull começou o concerto com suas canções mais recntes, ou seja, com “Horses and High Heels”, que também é o nome de seu álbum de estúdio mais recente. Ao longo do show, que durou meros 70 minutos, ela escolheu um pequeno mas belo ctálogo de canções, incluindo clássicos (como “The Ballad of Lucy Jordan”, do álbum Broken English, o mesmo que a trouxe de volta à cena musical em 1979, e cuja faixa-título ela também cantou), e alguns temas contemporâneos que, como Marianne costuma fazer, ela ia apresentando à audiência uma após a outra, com pequenas falas, referindo-se à sua vida atual (“Moro em Paris atualmente. Eu amo Paris! Às vezes saio para andar um pouco e volto com a sensação de que nada, absolutamente, aconteceu”). Ou “That’s How Every Empire Falls”, quando ela explicou que a canção era sobre os Estados Unidos e a queda de seu império (“o império perverso, que está caindo, você sabe que ele está caindo, e o melhor de tudo é que não temos de fazer nada, eles fizeram isso sozinhos…). Mais algumas músicas, todas também do álbum Horses and High Heels (“Prussian Blue”, “Love Song”, que Elton John gravou nos anos 70, “Why Did We Have to Part”), além de uma versão de “The Crane Wife” dos Decemberists, que Marianne incluiu no álbum Easy Come Easy Go, lançado em 2008. Mas foram principalmente outras covers que fizeram o público se emocionar (cerca de 800 pessoas, nada mau para um concerto que não foi promovido o suficiente). De “Solitude” ( um standard de Duke Ellington) a “Working Class Hero”, de John Lennon, que Faithfull terminou erguendo o braço esquerdo, clamando por “vitória”, ou “Baby Let Me Follow You Down”, de Bob Dylan, a música em que Ribot trocou a guitarra pelo ukelele. Na certa, um dos momentos mais aguardados veio quando Faithfull introduziu “As Tears Go By”, que Jagger e Richards compuseram e entregaram a ela em 1965 (“uma canção que dois caras escreveram pra mim”, a música que fez Faithfull popular) e “Sister Morphine”, incluída no álbum Sticky Fingers, de 1971, dos Stones, que Marianne escreveu com Jagger e pela qual nunca foi creditada (“vocês devem conhecer esta canção, eu a escrevi com um cara de quem não lembro o nome agora…”). Faithfull deixou qualquer ironia restante de lado (afinal, ela não conseguia evitar menções aos Stones) e, novamentecongelou todo mundo com uma bela, francamente bela performance de “Strange Weather”, que Tom Waits compôs para ela, faixa título do álbum de 1987, após todos aqueles anos de heroína.

Finalmente, teve “Love Is Teasing”, que Faithfull escolheu como bis, e cantou a cappella, o que soou tão irlandês quanto a versão original escrita pelos Chieftains, enquanto as luzes do teatro se acenderam e Marianne chegou mais perto do público e apertou as mãos dos espectadores, como se ainda fosse necessária mais intimidade. O “anjo com seios” dos anos 60, em toda a sua graciosidade, quebrou suas asas com sucesso. E as almas restantes, apesar de belamente tristes, respiraram de novo.

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One response to this post.

  1. Sabemos que o local não é oportuno, mas gostaríamos de divulgar a vocês o espaço para download do primeiro álbum da banda JETLAG. Acesse http://bandajetlag.com.br

    Abrçs.

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