Tago Mago Extras

Tago de faixa a Mago…. digo, Tago Mago de faixa a faixa
por Alexandre Napoli

Paperhouse
Curiosamente, a faixa de abertura apresenta a levada mais convencional de Liebezeit em todo o disco. (pelo menos nos primeiros minutos). Os sintetizadores reverberando a mil servem de introdução à sonoridade eletrônica do album. Em oposição ao que predomina no restante do material, Damo suaviza a agressividade dos vocais em Paperhouse. Aqui sua participação é mais branda, quase secundária. Sua interpretação lembra mais o canto de um adolescente apático (vide Kurt Cobain em seus momentos mais “down”) do que os sussurros mântricos de outras faixas. Quem rouba a cena é a guitarra agressiva e bluesy de Michael Karoli e a batida industrial acachapante de Liebezeit (mais pro meio da faixa). Definição possível: Jam-estendida-sem-eira-nem-beira

Mushroom
A faixa mais pop do disco; possivelmente o mais próximo que os cans chegaram de um “hit radiofônico” (muitas aspas aqui!). Ruídos de feedback despontam da guitarra de Michael Karoli embalados pela imutável cozinha-locomotiva de Czukay e Liebezeit. O vocal de Damo surge em versos minimalistas carregados do mencionado apelo pop-bublegum-rockstar. Em intervalos, o crooner-freak explode em grunhidos agudos e roucos, dosando suavidade e selvageria como Jim Morrison em “When the music is over” (Será que só eu vejo essa semelhança toda entre Morrison e Suzuki? De qualquer forma, os Doors são constantemente citados como influência pelos cans, especialmente por Schimdt). A letra é um ótimo exemplar dos haicai-dadaístas de Damo. Já foi dito que o verso “When I saw a mushroom head/ I was born and I was dead” condensa em duas frases toda a experiência psicodélica.

Oh Yeah
Apontado por muitos como o som marca-registrada do Can. Ruídos cósmicos tentando reproduzir o som do big bang, batida imutável do meio-homem/meio-maquina Liebezeit, vocal tortuoso e monótono de Damo, versos dada-non-sense, licks psicodélicos de Michael Karoli, groove interminável de baixo, mudanças abruptas de climas, tá tudo aí. Divirta-se.

Halleluhwah
Irresistível cozinha funky, groove permanente, vocal cool de Damo, incríveis “solos” de bateria (batuque complexo e mecânico como um Olodum sem suingue). Chega a parecer um afro-beat industrial, temperado com efeitos eletrônicos e pirações guitarrísticas . A mais funky e mais longa faixa do disco (Emplaca os 18:32!)

Aumgn
O Can no auge do experimentalismo e da esquisitice sonora. Como já foi dito, a faixa mais freak do álbum. Aumgn se assemelha mais à chamada “música ambiente” do que a um tema executado por uma banda. Ao contrário das demais faixas, não apresenta base rítmica nem estrutura de jam. Possível indicativo do gosto de Czukay e Schimdt por trilhas-sonoras, Aumgn encaixaria perfeitamente num filme de ficção científica (de fato, seus ecos e efeitos assombrosos cairiam como uma luva nos momentos mais sinistros de 2001, de Kubrick). Outra faixa de longuíssima duração: chega aos 17:37.

Peking O
A de degustação mais difícil, ao lado de Aumgn. Passagens instrumentais minimalistas; Damo em sua mais extrema “linguagem da Idade da Pedra” (balbuciando associações indecifráveis e raivosas avacalhações verbais); experimentações sonoras com velocidade e rotação; deslocados fraseados jazzísticos de teclado; Liebezeit impassível em seu ritmo-metrônomo. Vá com cuidado. Pode causar indigestão.

Bring Me Coffee or Tea
Reflexo da época, a faixa ressoa o flerte da psicodelia sessentista com a sonoridade indiana. Karoli adiciona um interessante efeito de cítara na guitarra, se esmerando em licks atonais e efeitos mil (Haveria um fuzz ali no meio?). As viradas nada óbvias de Liebezeit lembram vagamente John Densmore em “The End”. Verdadeiro mantra freak, Bring Me Coffee or Tea evidencia o senso de humor de Damo e fecha de maneira inesperada um disco antológico.

Tago Mago: A origem do nome
por Alexandre Napoli

Em seus tempos de jazzman, o batera Jaki Liebezeit chegou a acompanhar a banda de Chet Baker por turnês mundo a fora. Durante uma temporada de shows com o lendário trompetista em Ibiza, na costa espanhola, Liebezeit ficara fascinado por uma ilhazinha menor situada à noroeste da badalada ilha catalã. Tratava-se de Tagomago, um belíssimo recanto particular freqüentado pelo jet set espanhol e internacional. No meio desse pequeno paraíso mediterrâneo, o ar de mistério e exotismo de suas formações rochosas capturou a imaginação do futuro Can.

Quando pensavam em um nome para o novo disco, Liebezeit se adiantou: “Que tal Tago Mago? Estão lembrados? Aquela rocha na costa de Ibiza que eu falei pra vocês, que eu vi quando tocava com o Chet Baker em Barcelona, em 1963”. A turma acatou a sugestão e eternizou o nome da ilhota como título do maior clássico do Krautrock. Na verdade o lugar já tinha sua fama. Conta-se que o ocultista e filósofo Aleister Crowley esteve em Tagomago e praticara por lá seus medonhos rituais. Embora Crowley não tenha inspirado diretamente a concepção de Tago Mago, o elemento “mágico” da obra sempre foi sublinhado pelos cans. Irmin Scimdt utiliza a expressão “witchy suprsings” – algo como “surpresas de bruxaria” -, para descrever o clima das sessões do disco. Para Holgar Czukay, o álbum foi “uma tentativa de chegar a um mundo musical misterioso da luz à escuridão e depois retornar.”

O texto completo sobre Tago Mago e mais 100 discos prog lançados em 1971 você confere na nova edição da pZ, já disponível no www.poeirazine.com.br/

One response to this post.

  1. Posted by Patrick on 27/03/2012 at 21:43

    Melhor disco da história de todo o rock… Uma vez, numa entrevista (se não me engano) o tecladista foi questionado de como eles (os CAN) concebiam suas músicas… no que ele respondeu: “percebemos sonoridades infinitas e fazemos excertos delas”.

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: