Archive for the ‘Pérola Escondida’ Category

Judy Henske and Jerry Yester – Farewell Aldebaran

por Radamés Junqueira

A estampa Straight, de propriedade de Frank Zappa e seu manager na época, Herb Cohen, foi crucial no lançamento de diversos artistas da época. Alguns deles adquiriam diferentes status com o passar dos anos: Alice Cooper como ícone e avô do metal, Beefheart como transgressor de primeira e referência para o pessoal mais intelectual, Tim Buckley como pai de Jeff e trovador injustiçado da época, GTO’s como um dos primeiros combos exclusivamente femininos e Wild Man Fischer como uma espécie de Damião Experiença gringo. Mais um álbum do selo Straight pinta aqui nessa seção da pZ, ao lado de Jeff Simmons, e se trata de um disco gravado em 1969 por um ex-integrante do Lovin’ Spoonful (Jerry Yester) e sua esposa singer-songwriter (Judy Henske). Farewell Aldebaran, o filho único do casal, curiosamente tinha muito mais a ver com Sun Ra e Stockhausen do que com Lovin’ Spoonful…

Henske, além de ser um rostinho bonito, tinha uma ótima voz e havia sido uma renomada cantora pop no início da década de 60, lançando vários álbuns sob a tutela de Herb Cohen, seu manager e produtor. Henske emplacou um hit nessa época, “High Flying Bird”, que depois seria regravada pelo Jefferson Airplane.

A cantora era contratada do selo Elektra, assim como o Modern Folk Quartet, que tinha Jerry Yester em sua formação. Companheiros de selo, Henske e Yester começaram a compor, sendo que o último paralelamente a isso foi fazer parte do Lovin’ Spoonful, já que Henske tinha engravidado dele e queria abandonar o showbusiness para cuidar do filho que estava por vir, dedicando-se somente à composição dali por diante.

Quando o Lovin’ Spoonful acabou, depois que dois de seus integrante foram indiciados por porte de drogas, Yester e Henske receberam um convite de Herb Cohen, que sugeriu que o casal se mudasse de NY para a Califórnia e lá gravasse pela Straight, o selo que o empresário estava montando com Zappa. Yester admirava muito o trabalho de Zappa, então topou de imediato o desafio.

Logo o casal estava gravando seu primeiro disco como dupla, e estavam muito bem amparados por músicos como Zal Yanovsky (também do Spoonful e co-produtor de Farewell Aldebaran), Ry Cooder, David Lindley e Larry Beckett, entre outros.

Farewell Aldebaran abre com uma canção chamada “Snowblind”, um blues ácido onde Judy Henske bota tudo pra fora com um timbre de voz as vezes parecido com o de outras bandas lisérgicas da época, como o Blue Cheer, por exemplo. Enquanto isso, Zal manda ver em solos de guitarra repletos de fuzz e malandragem. “Horses On A Stick” é uma delícia, meiga e viajante, bubblegum de primeira. “Lullaby”, “St. Nichollas Hall” e “Rapture” são bem mais sérias, mas não menos geniais e “Three Ravens” é folk de uma sensibilidade impressionante e “Raider” poderia ter saído dos primeiros álbuns de Neil Young. Outro destaque é a faixa “Charity”, com muitos vocais afiados e uma melodia marcante.

O material que o casal havia concebido era no mínimo tocante e também futurista, mas a vanguarda de Farewell Aldebaran estava na faixa-título, a última do álbum. A viagem começou com uma idéia maluca de Yester, quando ele vislumbrava que um asteróide gigantesco se chocaria com a Terra em breve. Para isso ele precisaria criar uma voz apocalíptica de um extraterrestre e foi isso que ele fez, usando técnicas bizarras, como cantar dentro de um piano enquanto Zal Yanovsky apertava o pedal de sustain, para que as cordas criassem uma espécie de “eco espacial”. Um Moog também foi utilizado na gravação da faixa e foi trazido ao estúdio por Paul Beaver, da dupla Beaver & Krause. Beaver ensinou Yester manusear o novo “brinquedo” e o resultado ficou extremanete interessante, somado a vozes distorcidas e a um naipe de metais todo propositalmente irregular.

A crítica foi severa com o disco, o que fez Yester e Henske montarem um novo projeto chamado Rosebud antes do casamento entrar em colapso e eles se separarem de vez. Antes do fim prematuro, Yester gosta de lembrar que a dupla “quase chegou lá”: “Um belo dia eu estava andando pelo estacionamento da Warner e o executivo Mo Ostin parou com seu carro ao meu lado e disse: ‘Hey, nós adoramos o seu disco e vamos promovê-lo com toda a nossa força’. Abaixei a minha cabeça e disse a ele que eu e Henske havíamos terminado com tudo… Ele se lamentou e partiu cantando os pneus de seu carro… E foi isso, ele não queria apostar em algo que já não existia mais…”.

Matéria originalmente publicada na revista poeira Zine #28.
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Buffalo – O Hard Australiano!

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Tão logo veio a triste notícia do falecimento do guitarrista Pete Wells, me ocorreu dedicar a seção Pérola Escondida para sua banda desconhecida dos anos 70, o Buffalo.

Pete começou tocando baixo, em 1966, quando montou ao lado do amigo Dave Tice a banda The Odd Colours, em Brisbane, Queensland, Austrália. Esse grupo teve vida breve e logo a dupla se mandou para o Strange Brew (não confundir com aquele projeto de Cozy Powell, em meados dos anos 70, ao lado do pessoal do Humble Pie).

No final de 1967, Wells e Tice montam a The Capitol Show Band. Com a chegada da década de 70 e com o Rock ficando cada vez mais pesado, se mudam para Sydney e reformulam seu som, assumindo o nome de Head, contando também com Paul Balby na bateria (depois substituído por Jimmy Economou), John Baxter na guitarra e um segundo vocalista, Alan Milano. Lançam um compacto e marcam presença semanalmente numa espelunca fedorenta de Sydney.
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La Maquina de Hacer Pajaros

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La Maquina de Hacer Pajaros foi um dos muitos projetos do argentino Carlos Alberto Garcia Moreno, o popular Charly Garcia, herói na terra do Maradona.

Na primeira metade dos anos 70, Garcia atuou com Nito Mestre no Sui Generis, uma das principais bandas da América Latina.

Em 1975, lágrimas e tristeza na Argentina. O Sui Generis faz seu show de despedida com Charly se mandando para o Porsuigieco, um conglomerado com a nata do folk portenho: Raúl Porchetto, León Gieco, Nito Mestre e María Rosa Yorio. Essa ‘tchurma’ lançou um único e belíssimo registro em 1976 (eu tenho!) mas o que Charly queria mesmo era se aventurar em uma banda de Rock Progressivo.
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Jeronimo, submergindo cada vez mais no ostracismo…

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Apesar do grupo se chamar Jeronimo e a capa de seu disco mais conhecido estampar um índio mexicano, a banda vinha da Alemanha!

O grupo foi formado na segunda metade dos anos 60 e desde o início fazia um Hard Rock tosco, pesado e balançado. Em 1969 a banda começa a ter uma forte projeção graças aos compactos de “Heya” e “Na-na-hey-hey”, dois hits nas paradas européias.

Um fato curioso é que a primeira aparição do Jerônimo em LP foi em uma coletânea chamada Spiritus Orgaszmus, onde eles dividem a bolacha com o Creedence Clearwater Revival! Cada grupo ficou com um lado do elepê, que foi lançado pela Bellaphon. Raríssimo nos dias atuais, a bolacha foi prensada em vinil rosa e vinha com um pôster gigante.

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Boomerang! – A Vibração do Hard

Boomerang - Front

No final do ano de 1969 estava tudo acabado para o Vanilla Fudge. Foi neste ano que eles lançaram o seu último álbum, Rock N’ Roll. Devido a crises internas e perda de território para a nova geração do hard americano (Grand Funk, Mountain, Bloodrock), o jeito era dar um tempo mesmo.

Os quatro integrantes, então,começaram a “mexer os pauzinhos” e montaram novos grupos e projetos para a promissora década que surgia. Carmine Appice e Tim Bogert formaram o Cactus junto com dois figuras carimbadas da cena roqueira da cidade dos motores, Jim McCarty (ex-Mitch Rider and the Detroit Wheels e Rusty Day (ex-Amboy Dukes). O guitarrista do Vanilla Fudge, Vinnie Martell chegou até a receber uma oferta para tocar com Jimi Hendrix, o que só não rolou porque Hendrix morreu antes. E o líder, tecladista e vocalista do Vanilla Fudge, Mark Stein, formou um combo para tocar Hard pesado, um estilo que era sua verdadeira paixão, sobre o nome de Boomerang.

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East Of Eden: Um mapa-mundi de influências sonoras

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Gerard Mercator é considerado um divisor de águas na história da cartografia. Eminente geógrafo flamengo do século 16, foi ele o criador da primeira representação cartográfica confiável da esfera terrestre, através de projeções sobre uma superfície bidimensional e de um conjunto de mapas por ele denominado Atlas (já ouviu falar nessa palavra?), em homenagem ao rei Atlas da Mauritânia.

Pois ninguém melhor do esse senhor para batizar o primeiro álbum de uma banda inglesa que era um verdadeiro mapa-mundi de influências sonoras, anos antes da expressão world music ser cunhada pelos rotuladores de plantão.
Mercator Projected é o nome do álbum e a banda é nada mais nada menos que o East of Eden, uma ilustre desconhecida nos dias de hoje, mas um dos grupos mais originais da incipiente cena progressiva de sua majestade.

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Stretch – Uma faceta muito bacana de Mr. Elmer Gantry!

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Não tem como falar de Stretch sem falar de seu lendário líder e incontestável figura central, Mr. Elmer Gantry.

Gantry começou sua carreira como Dave Terry, seu nome real, numa banda britânica de soul, o Five Proud Walkers, grupo que ficou completamente atordoado após abrir um concerto do Pink Floyd em 1966. A primeira atitude do jovem Terry foi mudar de nome para Elmer Gantry, em homenagem a famosa novela de mesmo nome, de 1927, de autoria de Sinclair Lewis, que serviu de inspiração para o filme homônimo de 1960, estrelado por Burt Lancaster.

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